14/11/2005

E o espaço, esse, não existe.

não havia nunca um universo e sim milhões e biliões de universos, os quais todos juntos não eram maiores do que a cabeça de um alfinete. era um sono vegetal na selva do espírito. era o passado, a única coisa que abrange a eternidade.

henry miller in trópico de capricórnio

07/11/2005

E o tempo é uma piada, irónica.

se prolongarmos durante tempo suficiente o equilíbrio à beira do abismo, tornamo-nos peritos na matéria: seja para que lado for que nos empurrem, endireitamo-nos sempre. o equilíbrio constante desenvolve em nós uma alegria feroz - uma alegria que não é natural, deveria dizer. hoje há só dois povos no mundo que compreendem o significado de tal declaração: os judeus e os chineses. se não pertencemos a um nem a outro, estamos numa estranha situação. rimo-nos sempre no momentos errado e somos considerados cruéis e sem coração, quando na realidade somos apenas duros e resistentes. mas, se nos ríssemos quando os outros se riem e chorássemos quando os outros choram, então deveríamos preparar-nos para morrer como eles morrem e viver como eles vivem. isto significa estar certo e ficar a perder ao mesmo tempo. significa estar morto quando se está vivo e estar vivo só quando se está morto. em semelhante companhia, o mundo apresenta sempre um aspecto normal, mesmo nas condições mais anormais. nada está certo ou errado, mas pensar torna as coisas certas ou erradas. deixamos de acreditar na realidade e passamos a acreditar no pensamento. e quando somos empurrados da beira do abismo, os nossos pensamentos acompanham-nos e não nos servem de nada.

henry miller in trópico de capricórnio